Do lato experimentado apreendido no decorrer pela vida um afunilado caminho em lento ganho de consistência exibe a sua forma. Os anos escorrem e torcidos pingam identidade, o longo caminho tacteado em busca da verdade, os dedos magros de unhas raspados em parede rugosa e fria em viscosa abafada humidade de gruta, aos poucos dissolve-se a bruta amorfização. Ao longe o intangível mostra a sua sombra, o ponto de convergência assume-se como centenas de milhares de pequenas escolhas pontuadas por escassas decisivas opções nem sempre optadas mas dependente de milhões de outras opções de nós não derivadas, das anafadas formas bojudas que se alojam em fundas poltronas pantanosas, esfregadas mãos gordurosas ordenam a estrutura invisível que condiciona as milhares de milhões das acções dos homens. Ao longe já é perto e o cansaço cansou de fincar o destino. Finalmente é dado sentido ao menino só, do dó à paixão pela lacuna, duna após duna o árido deserto é transposto e o núcleo exposto. Engolido o desgosto diferença é agora vantagem investida, merecida vitória de sofridos pesados anos de acartada falha central, a mal aprende-se da melhor forma. A bem o petiz é feliz e na integração delicada enquadra a informação em alegre perspectiva de sol bem esfregado tudo é doirado e reluz ofuscante a lógica brilhante, pois se a estrada flui em direcção a nós próprios jamais a poremos em causa. A náusea vem do forçado equilíbrio insustentável da tristeza do pôr em causa a própria beleza, questionar infinito de criança insatisfeita, amorfo que sofregamente procura a sua forma, existência convergida em simples traços concretos, convergência de mil objectos tocados num ínfimo ponto sólido de luz, converge no ponto final a identidade firmemente adquirida, base sólida de consistente ponto de partida, é-se o que se faz e faz-se o que se pode nesta vida.
A presença de uma estrutura exige satisfação. A pretenção é expressar, jorrar fora o que se tem dentro, gerar dinâmica renovadora de sistema psíquico, criar um mecanismo optimizado de manutenção da homeostasia interna, assegurar transfiguração eficaz e coerente da malha neuronal de forma a minimizar o desperdício de recursos e energia em processos cognitivos autodestrutivos canalizando o excedente de uma forma construtiva e autopreservante.
sexta-feira, junho 03, 2005
domingo, maio 29, 2005
terça-feira, maio 17, 2005
leveza
Soltam-se as palavras
Livres esvoaçam pelo espaço
Aberto incerto
Da mente sorridente
.
.
Vidente de boas épocas
Vindouras sonhadas
Intercaladas por premonições
De esoterismo mistificado
.
.
Canções espalham-se entornadas
Por viola atestada de sentimento
Puro cristalino de violento afecto
Projecto partilhado à volta da fogueira
Vontade de beijo dança na clareira
.
.
Queima a madeira do isolado caso bicudo
Crónico afastamento da particular qualidade
Do momento que contudo nunca se repete
.
.
Não faz frete quem ama
Enrola no corpo do outro
Sua a cola que pega na pele
Cega a beleza inverte a tristeza
Não há certeza do amanhã
Não é vã a vida trincada
Saboreado momento indecente
O presente é tudo o que importa?
.
.
Ao fundo uma porta
Aberta incerta da mente
Sorridente esbatida ferida
.
.
Encosta ao toque de leve
A mão feminina requintada
Enche preenche e pinta de côr garrida
A dureza empedernida
De séculos solitários
Mói a rocha dorida
O tocar suave
Não sugere entrave
Erode em areia fina
A má sorte triste sina
De olhar baço sustentado
Peso metálico de ferrugenta solidão
Em vão
.
.
Chegada a água benta
Tudo o que arde cura
E cada segundo perdura
.
.
Furada a casca do calo
Levado na cara o estalo
A vida é fácil o corpo é leve
O ar é fresco e os pássaros da frente
Chilream entre si que tudo passa tudo muda
E nada dura para sempre
quinta-feira, maio 12, 2005
renovação
Uma nova Era emerge após passada eternidade. A Era da morna amenidade da brisa que sopra do norte, da paz densa inspirada de frágil fragrância a princesa do bosque, humilde riqueza de Vida fervilhada em camponesa favorecida por florescidas bastas formas formadas em dias sem pressa por sossego de embalo, cadência campestre dos campos de terra arejada irrigada por água escorrida de calha roubada do rio o fio de caudal, cobiçado pela secura que sufoca a manta de terra de solo ressequido ávido de fluido, o solo sulcado por calos de pesada enxada tombada, rasgada a camada seca de poeira assente em calma aparente. Ao Sol radiante reluz a pele do lagarto que torra o dorso em muro escaldado de pedra à mão empilhada. O tempo pára
e descansa à sombra do chaparro fuma um cigarro e deleita-se no torpor envolvente de um todo ausente. Presentes apenas insectos tacteadores e os calores da envolvência de um universo amado.
segunda-feira, maio 02, 2005
ventre
Imerso em âmnio flutua o feto vagarosamente vestido em sua translúcida figura. Envolto em placenta não sabe o que não inventa, testa o membro recente sem fadiga roça na barriga por dentro, mexe o olhar atento do ente materno que o embrulha. Partido o aconchego de toca protectora e do manto líquido quente que ainda o sente, chegada a frieza do ar que fere o frágil pequeno pulmão, a exposição incubada da sala de vidro fechada, a palmada no rabo sem nada ter de pecado, eis por fim o seio encantado, o leite morno que sai do corpo de onde saído em atraso arrastado. Queria ficar para sempre no seu ventre seguro, não ter de enfrentar este mundo que aturo. No fundo jamais o deixei, continuo imerso no amor da sua presença a seguir o caminho que jorra da ponte por si projectada e a ter veia conectada com panaceia de conselhos protectores contra as dores. Beijo a bela face de quem me pariu mas nunca partiu, quem de mim fez o que hoje me vejo e de futuro prevejo.
terça-feira, abril 26, 2005
Abril
De um passado distante erguem-se os progenitores em reclamado reconhecimento. Apenas pedem o olhar atento de quem lhes deve a vida para uma liberdade em tempos perdida agora presente. Embevecidos humildes pedidos de apreciação de atmosfera purificada de imposta restrição passada onde esvoaçante andorinha errante saboreou seu mergulho marinho em refrescado suado cansaço da luta pelo abraço a cada pedaço de momento vivido. Na memória da prole dos guerreiros sonhadores desvanecem-se agora os princípios construtores pelos quais os jovens ancestrais deram fogo em brasa de si queimando as opressões esfumaçadas em canções de fraterna união num festim de liberdade. Em ambos quaisquer os casos toleram-se quaisquer atrasos pois quem chegou em bonança nunca perdeu a esperança por algo nunca sentido. Mudam-se os tempos mudam-se as cidades e as verdades proferidas por minúsculos habitantes que caminham ofegantes em direcção ao destino que quando for atingido após pausa prolongada uma nova decisão gerará uma outra acção delinear outro caminho.
segunda-feira, abril 18, 2005
corpos no espaço
O espaço circundante que se ocupa de corpos estranhos ao nosso fala amordaçado por murmúrios levemente perceptíveis. Trejeitos de faces felizes comunicam em fundo de sons que colidem em estridente azáfama de manada à solta, pululam membros que descrevem rotas precisas constringidas pelas forças dos outros que os movem na floresta de gente, onde o toque quente de faúlha em brasa encosta roçado por asa e o sorriso esboçado por testa franzida em rosto cansado disfarça contida alegria presente. O espaço ocupante que circunda os corpos balbucia num ritmo próprio as suas cores diversas pintadas em telas onde pàletes de movimentos fluidos coloridos geram situações de arco-íris de próxima distância, onde o desejo guloso espreita de seu reduto aninhado e embasbacado fita o longínquo horizonte onde jazem as naus naufragadas, embarcadas demandas à séculos sonhadas de riscos tomados por estradas de sal temperadas com ocasionais intempérides. Basta de bastardos definhados de olhares esgazeados que em sua desarticulada dinâmica estática poluem e encravam a sequência natural de eventos unificantes que untam as partes colaborantes de amor. Em paz o grupo atento tece a cola que une cimento que os funde na mola que os projecta a um estado maior de ascenção de síncrona sintonia afinada onde cada parcela vê-se articulada e reconhece o encaixe da plenitude do seu meio vital.
sexta-feira, abril 08, 2005
quinta-feira, abril 07, 2005
perda
A perda é um microcosmos dorido alojado no fundo sentido da cratera de um projéctil enviado no premir de botão por dedo de quem se ama. Dos risos soltos em dias de primavera lufadas de borboletas pousadas em pétalas saboreiam néctar em bucólico deleite a nudez escorre como leite colina abaixo de braços abertos movimentos certos rola na relva e pasta a frescura que paira no prado. Resta apenas enfeite postiço de máscara de gente cravada no rosto de tom indiferente em corpo colhido por foice afiada: onde está a estrada de simplicidade luminosa em seu portento de luz? Porque deambula a negra solidão de capa preta e capuz pelo obscuro bosque de carvalhos anciãos que ladeiam a berma? Liquefaz-se a dôr e bebe-se de um só trago, amargo travo a tristeza em fineza de boca que sufoca distraída, caída palavra no chão estatela-se de um só estalo.
segunda-feira, abril 04, 2005
o nó
Enrolar o cabelo num ritual refinado de lânguidos movimentos circulares que convergem na elaboração de um pequeno nó. O prazer culmina no instante preciso da concisa dissolução do nó, despoletar de êxtase onde preponderante algo de mais excitante, explode a nua tensão num despejo fluido de um acontece e o Universo resplandece em toda a sua densa congruência unitária. Ambivalência binária de dualismo assumido, reflexão redundante de tanto tempo perdido, o nó compõe o todo como componente integrante da globalidade pensada e sem ele nada faria sentido.
domingo, abril 03, 2005
amanhecer
Desponta ao longe um sol pálido mas força de vigor espelhada nos olhos. Hoje tudo mudou. Hoje impera a leveza a solidez do granito apodera-se do corpo mole e a mente flácida abre o peito cerra os dentes e ergue-se das cinzas fénix indestrutível imparável dirigível em rota de colisão. Nada nem ninguém a mal ou a bem impedirá o ímpeto da poderosa cascata dura que rasga a rocha bruta em forçada erosão e perscruta em minúncia a Terra. Esta guerra não é nova, é o velho caminho gasto pelas solas transeuntes de quem sabe da efemeridade da preciosa viagem.
sábado, abril 02, 2005
poesia
Poesia como dança mental organizada de acordo com um padrão individual de expressividade. O livre exercício de palavras que fluem soltas e se riem despreocupadas com a sintaxe imprópria na qual por vezes tropeça quem não olha para o chão. Não, o sentimento inexpressável pode ser liberto da sua tumba silenciosa de uma forma subjectiva e amplamente abrangedora: uma multiplicidade de aspectos pessoais intrinsecos não partilhados derivados de um vivência irrepetível corroem os andaimes que sustentam a precária edificação sináptica que apática desaba sob o fardo de um peso amado. Torna-se imprescindível agir no sentido de transmutar tralha em palavras de prata.
colapso
Eis que um dia o desabar inevitável de uma estrutura interna imperfeita ribomba pelos desfiladeiros estéreis de um deserto perdido nas dunas. Rasteja na poça de uma sargeta imunda a outrora brilhante forma, dos tempos esquecidos da ascenção, quando o amor transbordava dos homens e enchia barragens de felicidade. Agora o núcleo interno de um cerne formado em fecho cerrado colapsa sob o peso do próprio vazio, o nada imiscui-se nas finas reentrâncias de entranhas mentais microfracturadas vazadas de um propósito maior, e o vácuo, esse, insinua-se em amável subtileza e convida a beleza da presença de uma ausência para tomar chá.
extravasamentos
Extravasar é preciso. O que faz falta é animar a mente descrente que a si própria mente, desvendar o emaranhado intrincado de uma densidade complexa que se anexa a uma rápida modificação na percepção do mundo que nos rodeia, desembrulhar a sós os nós que a nós nos frustram, quebrar a corrente da pesada carga carregada pelos carreiros das montanhas do tempo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



